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quarta-feira, 25 de março de 2015

Ode a um artista



Mark Knopfler

E a vida vai passando
de arte em arte
de sorriso em sorriso
sempre vagabunda de nós

Os gestos querem-se artísticos
o quotidiano demanda
por frágil subtileza de sentidos
cada movimento é comandado
para ser único e incomparável
ritmo natural das coisas

por favor, sem comentários

É como esta pausa solitária
da guitarra clássica
que ouço antes de me deitar
esboço um sorriso
não pelos pensamentos, malditos
mas pela existência brotada
dos rendilhados sonoros
que a ausência de voz provoca

Alegria não é felicidade
nem dor tristeza
apesar de serem confundidas
umas são existências
outras vidas
perdidas pelas marés
do tempo e da memória
abastecidas por esta faísca
que agora queima
sempre depois
sempre um passo à frente

A arte
não se compara
não se analisa
não se constrói
não se processa
não se pensa
não se vive
existe

por favor, sem comentários,
como tu sabes, mark


rafael

quarta-feira, 11 de abril de 2012

As etapas da vida (1834), Caspar David Friedrich


Esta pintura deixou-me boquiaberto! A harmonia com que o pintor e os seus familiares se relacionam com a natureza e o significado dessa relação com cada um de nós são os primores desta bela obra de arte.

Rapidamente procurei saber mais sobre os pormenores da imagem. Deixo-vos os resultados e as minhas conclusões:

Nesta pintura, surge Friedrich já em estado de velhice, de costas viradas para nós; o homem que se encontra de pé é o sobrinho; as duas crianças deitadas ao seu lado são os filhos de Friedrich; à esquerda encontra-se uma mulher que (e aqui as interpretações diferem) é a filha mais velha do pintor ou a sua esposa, Caroline. Com estas representações, Friedrich representa as fases da vida: a infância, a vida adulta e a velhice. Notamos que há também cinco barcos no mar, cada um potencialmente ecoando cada uma das figuras.

Apesar de existirem várias interpretações sobre a analogia entre as figuras e os barcos, eu acredito que a mais adequada é a que posiciona as distâncias dos barcos em função das etapas da vida. Assim, os dois barcos mais próximos (e mais pequenos) representam os filhotes mais novos, o terceiro representará a filha mais velha (não penso que seja a esposa, dado que zarpou aparentemente há pouco tempo…), o quarto será o sobrinho e o quinto, o último, que se vai perdendo no horizonte, é o nosso Caspar. Deste modo, o movimento dos barcos para o alto-mar (sinónimo aqui de esquecimento) é a metáfora perfeita para a vida e para o nosso destino. A amplitude alargada e o espírito sereno do mar provocam uma impressão de serenidade face à passagem do tempo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

ATENÇÃO: ISTO NÃO É UM FILME!


O massacre dos inocentes (1567), Pieter Bruegel

A acontecer, como todos os outros massacres que assolam o planeta pela mão humana, este poderia ser descrito do seguinte modo:

Numa gélida tarde de Inverno, uma próspera vila flamenga a que por conveniência chamaremos Bloodfalls, é invadida por uma matilha de cavaleiros armados com lanças, espadas e um sorriso feroz. Metodicamente, o grupo dispersa-se e começa a formar algo semelhante a comissões da morte. Cenas de horror começam a desfilar.

À porta de casa, separam uma criança da sua família.

Soldados com um cão de olhos vermelhos arrancam um bebé dos braços de uma mãe suplicante.

Um homem de joelhos chora enraivecido para que poupem a sua vida e a do seu burrito.

Um pai sufoca e engole neve derretida quando vê o seu recém-nascido, de cabeça para baixo, agarrado por uma perna.

Um velho de vestes rotas que esmaga o pescoço do seu único ganso ergue-o na direção de um soldado, esperando que este o troque pela jovem sobrinha.

Em múltiplos locais, os animais são apunhalados, degolados, esventrados e deixados sem vida nas camadas de neve que derrete com o sangue fervente.

De súbito, a paz regressa à aldeia, um sossego triste e sem alma.

PS – Na verdade, Pieter Bruegel originalmente pintou crianças a serem chacinadas. O trabalho chocou o seu mecenas, o rei Rodolfo II, que não conseguia assistir ao sangue das crianças assassinadas. Por isso, Bruegel contratou um artista de Praga para que substituísse cada criança por um animal…

Não seria o mundo muito mais rico se a realidade fosse um quadro e o rei Rudolfo II o seu patrono?

quinta-feira, 8 de março de 2012

Algo sobre a rutura do tempo

Dizem alguns cientistas e filósofos que o tempo não é linear e contínuo, não passa sempre da mesma maneira. Aliás, arrisco a dizer que a passagem do tempo é tudo menos regular e coerente.

Isso acontece porque o tempo é um conceito da mente humana e nela crescem e murcham representações da realidade que construímos a partir do que já vivemos ou do que inda viveremos. Vulgarmente, atribuímos a estes conjuntos de representações as designações de passado e futuro.

Um exemplo: quando imagino uma vida da qual o meu pai já não faz parte é como se estivesse a dizer em paralelo “O meu pai morreu”. Nesse momento, vivo num tempo futuro e por essa razão sinto um vazio tão grande e um aperto no estômago que se torna verdade, apenas para mim e apenas durante esses instantes.

O mesmo acontece com o passado. Quando recordamos algum momento do passado, surge uma rutura no tempo. Mentalmente desloco-me ao passado, ou melhor, à ideia do passado que construí, por exemplo, de um momento de felicidade. Claro que procuro reter-me nesse momento, prolongá-lo, repeti-lo. A noção de tempo (segundos, minutos, horas) cessa e existo apenas nesse intervalo temporal construído na mente.

Essas ruturas são uma das chaves da felicidade. Elas existem e continuam a existir da forma tão recorrente quanto o desejarmos ou nos é imposto. Assim, acredito que o presente e tudo o que nele está incluído não são a única fonte de (in)felicidade. Toda a bagagem de experiências pessoais passadas ou por vir é igualmente importante, já que nessas experiências vivemos também durante tanto tempo.

Que o diga o avô que observa os netos a brincarem e recorda a sua infância feliz.

Que o diga a noiva apaixonada que ensaia mentalmente o seu casamento.

Religião e ciência à parte, faz realmente muito sentido que se diga que alguém ou algo vive através de nós, das nossas ruturas temporais.

quarta-feira, 7 de março de 2012

The land of cockaigne (1567), Pieter Bruegel


Achei este quadro tão engraçado que tinha de partilhá-lo!

Estamos na terra das doces delícias e, contra todas as ideias preconcebidas, em 1567 não são apenas os nobres e os clérigos que pensam em manducar manjares celestiais.

Nesta terra, não há a necessidade de trabalhar (como se pode ver pelo lavrador barrigudo a meio da sua sesta mexicana): as casas têm telhados com tartes; das árvores crescem mesas já compostas com pitéus; os catos (à direita) trocaram os espinhos por panquecas; e até os próprios animais chegam à terra já devidamente preparados para a devida degustação.

É o céu na terra!

Mas mesmo com tantas facilidades, prevemos uma realidade que pode resultar num cenário defeituoso. Afinal, um camponês obeso e preguiçoso, um escriturário que trocou os seus livros por sonhos, um soldado que depôs as armas, um cavaleiro sem cavalo e à espera das tartes que caiam do telhado… não auguram nada de bem para esta nem para qualquer sociedade que preconize a preguiça e a gula como seus princípios basilares!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Ó homem, se pode parar de escrever, aproveite!

A palavra assim ordena!
No segundo dia das Correntes d’Escritas 2012, dominou a palavra proferida, refletida, exumada, eterna, enfim, a palavra que conta vidas e as eterniza.
Confesso que a sessão da manhã me desiludiu um pouco, porventura por força das expectativas que tinha criado em torno do tema “O fim da arte superior é libertar” (Fernando Pessoa). na realidade as conversas redondas giraram em torno dos conceitos de libertação e de escrita, e não em torno do autor do mote como eu esperava. Apesar disso, interessantes observações sobre a alma da escrita escorreram das conversas e merecem ser revisitadas nas atas finais do encontro.
A sessão da tarde, essa, teve nuances de poesia fantásticas. O tema “A Poesia é o resultado de uma perfeita economia das palavras” viu-se refletida nos discursos como um espelho. Margarida Vale de Gato recitou um dos seus poemas, incidindo sobre o serviço que a palavra presta à humanidade e não apenas à poesia. Pela palavra, a comunicação, somos capazes de atingir tudo (o que esteja ao alcance do ser humano, obviamente), ditar a vida e a morte, o amor, a esperança e o ódio. A intervenção do poeta angolano Manuel Rui foi uma total surpresa porque, penitencio-me, nunca tinha ouvido falar dele. Também recitou um poema, criado para a ocasião, que me despertou um desejo enorme de ler todo o seu repertório poético. Recomendo vivamente, pela linguagem visceral, pontualmente elevada mas sempre pautada pelo mundano, recriando momentos de sublime reflexão sobre o simples, a água, a palavra, o quotidiano. Sobre a economia das palavras, lançou a definição que consensualmente arrebatou a plateia: “as palavras não estão nem a mais nem a menos, o poema existe com as palavras necessárias”, quer isto dizer que toda a palavra poética idealmente tem a sua função no corpo textual. O último orador e, possivelmente, o que maior atenção atraiu foi Manuel António Pina. Foi o único que não trouxe nenhum texto preparado e isso foi uma mais-valia pela espontaneidade e pela jocosidade da sua linguagem. Fez valer a sua experiência enquanto cronista ao expressar a opinião sobre as anteriores intervenções. Reiterou a ideia de que a perfeita economia das palavras não existe, apenas a necessária. Mas o conceito predominante da sua teoria foi o de que a escrita, para quem a ama, é inevitável, como uma paixão amaldiçoada. Então se compreende a declaração de Rilke, essa maestra alemã que certa vez disse a um jovem poeta com aspirações “ó homem, se pode parar de escrever, aproveite!”, como se dissesse que se a mente não o obriga a escrever, experimente a vida!
Rebate na alma como um tambor “a palavra é a gota do som da água” do poeta angolano Manuel Rui.
A sessão noturna foi longa, terminou por volta da uma da manhã, e foi sem dúvida a que mais interesse gerou, compreensível pelo leque de participantes: Afonso Cruz, Ana Luísa Amaral, Júlio Magalhães, Rui Zink, Valter Hugo Mãe e Manuel Moya. Com o tema “A escrita é um investimento inesgotável no prazer”, as intervenções pautaram, na sua maioria, pelo tom satírico e cómico. Ana Luísa Amaral realçou o explosivo poder da palavra: “aqui o verso vem e senta-se ao nosso lado, metaforicamente claro, mas senta-se”, e exemplifica – “diziam que Napoleão tinha mais medo de um jornal do que de mil baionetas”. Júlio Magalhães, personagem mais conhecida pelo trabalho no mundo da televisão, teve uma das participações mais engraçadas da noite (batida talvez apenas pela de Rui Zink). Bastaram segundos para o comprovar… “obrigado por estarem aqui e trocarem isto por uma noite a ver o Porto Canal!”. Logo de seguida relatou um episódio passado há muitos anos: “entrei numa taberna e vi uma garrafa de ginja que me chamou a atenção pelo rótulo: ‘A única ginjinha em Portugal que ainda não ganhou um prémio’. Ainda está lá em casa. É assim que me sinto hoje aqui, sentado nesta mesa”. Depois de muitos outros relatos hilariantes da sua experiência enquanto escritor, passou a palavra a Manuel Moya. Este poeta espanhol, mais sóbrio de linguagem, exaltou o prazer da escrita: “o prazer da escrita é distinto dos outros prazeres, não se dilui em si mesmo, é um prazer que se obtém no processo e não enquanto fim”. Deixou também um apontamento sobre a função do pensamento na escrita, pois “refletir é deixar nadar os espermatozóides da consciência” (tradução livre). Seguiram-se Rui Zink (constante humor presencial) e Valter Hugo Mãe. A plateia ficou suspensa nas primeiras palavras do Valter, “eu quero ir para a cama com o rubem fonseca” (aludindo ao escritor vencedor do prémio literário em causa). No discurso decorrente, explicou o papel da sensualidade mental que um escritor pode provocar no seu público, mas foi uma intervenção marcante (e chocante, como é de seu hábito) pela constante referência à intenção de avançar com uma relação sexual com o escritor brasileiro. No final, no espaço para as questões aos intervenientes, surgiu uma personagem da plateia que afirmou “eu faço amor consigo [Valter Hugo Mãe] e com a Ana Luísa Amaral!”, claro está aludindo à sensualidade das palavras dos escritores e não dos próprios autores...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Imitação ridícula do propósito de Bordalo Pinheiro

Le Tricheur, O trapaceiro do jogo de baralho (1635), Georges de La Tour

Não há qualquer decoro nesta pintura. Contraposta a um background totalmente negro, emerge uma mulher atrativa (pelos parâmetros renascentistas…) que olha para a sua criada enquanto que esta enche o seu copo de vinho. É curioso que a mão da criada toca na mulher, enquanto que esta roça o seu dedo indicador na manga do braço do homem. Esta coreografia de mãos parece ser um sinal. O senhor da esquerda é submerso em escuridão, apenas iluminado nas secções que desvendam a sua tramóia: retira um ás de paus do seu cinto que certamente juntará às restantes cartas. Um segundo homem aparece à direita, concentrado no seu jogo. É observado pela criada mas parece não se aperceber disso. Todas as figuras revelam olhares imprecisos e enganadores, sugerindo uma cumplicidade suspeita entre elas. Este jogo de cartas é de facto uma demonstração das capacidades da alma humana em apostar nos vícios do engano, da luxúria e do álcool.

Nós, os observadores, o povinho, somos cúmplices! Reparem como parece ainda haver espaço na mesa para a nossa presença, como se nos fosse oferecida também a oportunidade de participarmos nesta tramóia tomando a parte do tramado!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O MESMO E O OUTRO

Entre o focar vezeiro e o disparar da Olympus
Interjecta-se o autor, o mago, a construção,
Como entre o lapidar e o achar nos garimpes
Ou como entre a mimese e a utopiação.

A consciência teórica hoje em decrescência
Adorno e Horkheimer dizem-nos que aconteceu!
E assim na imitação é que se põe a essência
Das artes como sendo a norma do Liceu.

Ora Aristóteles entende menos raso
Na Retórica e Poética o conceito velho:
Não é a cópia morta que resolve o caso,

Nem algo em que a cultura da natura é espelho,
O memetismo em clone nem gémeos alcançam
As artes entre o mesmo e o outro é que balançam.
Amadeu Torres


E mais mundo haverá...
Sem Amadeu Torres, haverá um mundo sem amadeu torres.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A Última Ceia (1498), Leonardo da Vinci


Se antes de O Código Da Vinci, de Dan Brown, esta obra já era famosa, após o filme tornou-se um ícone mundial de mistério e simbologia.

A perspetiva distanciada é unificada pela presença de Cristo no centro. Em redor, enquanto socializam, os apóstolos estão reunidos em quatro grupos de três. Assumo que Leonardo queira aqui simbolizar a Santíssima Trindade. Como em quase todas as últimas ceias de Cristo, Jesus parece dirigir as suas palavras não só aos apóstolos, mas também a nós, ouvintes.
O realismo na cena é, em grande escala, conferido pelas diversas atitudes das figuras presentes. Por exemplo, o grupo mais à esquerda parece assustado com a Palavra, já o grupo na extrema direita parece totalmente dedicado a uma acesa discussão, um outro grupo imediatamente à direita de Jesus mostra-se unicamente interessado no que se segue. O ambiente de jantar com bastante público está perfeitamente adequado. Leonardo concentra todas as suas capacidades artísticas na representação deste preciso momento, o da anunciação de que alguém (Judas) o irá trair: “Em verdade, em verdade vos digo que um de vós me há-de entregar!”. As emoções intensas fazem-se sentir neste fresco, nenhum apóstolo permanece indiferente ou estaticamente culpado.

Na linhagem da história da arte, esta pintura exerceu imensa influência ao longo dos séculos. Só no século XX, para exemplificar, beberam dela pintores como Andy Warhol e Salvador Dalí.

O contributo de Dan Brown para a decifração desta pintura é o reforço da teoria preexistente de que o apóstolo João (à esquerda de Jesus) é, de facto, Maria Madalena. Quer seja pelos traços femininos da figura, quer pelo posicionamento diagonal e simétrico dos dois a formar uma copa (símbolo do feminino), quer pelo contraste do vestuário – veste azul e manto vermelho de Maria Madalena; veste vermelha e manto azul de Jesus, símbolo antigo do matrimónio – a verdade é que a palavra de Dan Brown tornou a obra de Leonardo ainda mais conhecida. Daí a alterar a “verdade” da Igreja, essa é outra discussão. Não esqueçamos que Leonardo era, também ele, um artista, propenso à criatividade e com fantástica capacidade inventiva!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

sonho e rizoma: diálogo sincero com jung II


As masmorras

O terreno é uma pequena península, um braço defeituoso que se estende até ao mar. A única passagem é visível apenas do topo da pequena coluna de pedras, dispostas de forma tão planeada e rígida que se assemelha a uma escolha aleatória do lunático deus de espinosa. Sabem, é que eu vivo no intermédio, nessa mal-humorada disposição de pedras onde abundam vestígios de melena que tornam o espaço insuportável e a lua emerge baixa, circular e vigilante.
Inexplicavelmente, eu não conheço os caminhos da minha casa. Cambiam todos os dias, durante o meu sono. Este espaço certamente alguém o terá imaginado, inviolado e perfeito, infinito. Sinto-me como aquele borges, um conhecedor abstrato do mundo. A verdade é que as pedras não permitem entrever nada mais para além da sua genealogia, essa é a realidade permitida. Deixa-me, todos os dias, com um desafio novo para vencer, como um qualquer passatempo de jornal. E assim é – nunca resolvi nenhum destes puzzles. Por vezes, fico com a sensação de que estou perto e entro numa corrida alucinada contra o sono e as pedras. Na maioria das vezes, desisto pouco tempo depois de enveredar por determinado caminho, de prosseguir determinada pista. Normalmente, deito o jornal ao lixo, quando encontro alimento suficiente para o corpo não desligar.
Eu estou sempre no intermédio e, como vos disse, a situação muda quase diariamente. Durante tempos vivi lá em cima, no cume da montanha de pedras, com vários companheiros aprisionados em celas. Foram tempos difíceis. Comíamos bichos e bebíamos gotas de água que escorriam pelas reentrâncias da estrutura de pedra. Nunca mais os vi desde o dia da minha fuga, mas recordo esses tempos com saudade porque existia esperança. Compreensível, afinal. As celas são o único espaço de onde é visível a passagem da península. Todos os dias perdia-me a olhar para ela e a imaginar infinitos cenários para o dia em que a atravessasse, como se fosse um dos objetos eternos de whitehead, um reino de possibilidades.
Desde o dia da fuga, nunca mais vi a passagem. Presumo que esteja lá ainda, se bem que no outro dia estava a ler uma história sobre uma península que, subitamente, se desintegrou do resto da terra e movimentava-se como uma jangada. Andei sobressaltado durante dias de insónia. Agora sosseguei. Afinal de contas, seria totalmente irracional e absurdo se essa ideia acontecesse precisamente a mim! Era o que mais faltava, eu, um ser mesquinho, totalmente inofensivo!
Mas deixem que vos fale dos labirintos de pedra. Em verdade, não são realmente labirintos no sentido académico do conceito. Mas assim perceciono estes absurdos espaços. São um símbolo, sim, e um claro testemunho da minha loucura. Normalmente, alucino-me a subir e descer por escadas imperfeitas, câmaras e antecâmaras cinzentas. Este espaço, aumenta-o a penumbra, o tempo, o meu desconhecimento, a solidão. Daí sentir que o meu mundo, este – isto! –, é um labirinto, do qual é impossível escapar, pois todos os caminhos, embora apontem para os diferentes quadrantes, seguem realmente para Roma, que é também o metro quadrado onde me deito a dormir.
Um dos labirintos mais recorrentes é o dos caminhos de espelhos. É realmente a única ocasião em que os pátios de pedras se tornam corredores flanqueados por enormes espelhos que não permitem mais nada se não a repetição infinita do meu ser e da lua circular. Esses caminhos resultam no duplicado simétrico do horror original. Parece que a palavra do alcorão se confirma: retiramos o teu véu, e a visão de teus olhos é penetrante. Tenho como crença que a existência dos espelhos é um erro, uma incompetente imitação de um outro lugar, num outro tempo. Esse erro é abominável porque reproduz e valida o labirinto e, no entanto, nunca consegui justificar a recorrência com que me assola. Será que a multiplicação da minha realidade que daí resulta leva também à proliferação deste labirinto ao longo dos dias?
Bem, de qualquer modo, ao cabo de uns meses compreendi com certa amargura que nada podia esperar da atitude passiva, mas sim das ocasiões em arriscava uma contradição razoável. O que me leva à minha grande teoria – o espaço, aqui, é realmente o tempo, uma espécie imaterial de sucessão de estados de espírito, instantes que carregam no seu interior, de modo sucessivo, cada um dos espaços mentais onde vivo. Sim, eu sei, é uma ideia patética, a única que me chega com significado. Nesse caso, o espacial não perdura no tempo, a metafísica é um ramo da literatura fantástica e a minha esperança é a de nietzsche.
Regulares, apesar de dispersos, são os sonhos em que vivo quando fecho os olhos no meu metro quadrado. Ao princípio, os sonhos eram caóticos; pouco depois, tornaram-se de natureza dialética, como se enquanto durmo aqui, estou acordado noutro lado. Quase imediatamente, sonhei com um coração a bater, um coração de homem que sonhava quando o sonhado acordou. Tentativa frustrada. O que eu queria mesmo era sonhar um homem, de vida completa, com tempo e espaços contíguos, com amigos, amor e alguma felicidade, mas também marés conturbadas que fizessem os dias de sol valer a pena. E, depois de sonhado esse homem, impô-lo à realidade. Se alguém lhe perguntasse o seu nome ou qualquer pormenor da vida anterior, não seria capaz de responder.

Nessa altura, talvez, já eu não saberia se existo num labirinto de pedras ou num de sonhos.


rafael