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quinta-feira, 1 de março de 2012

Porque está lá


O caro Hugo Barbosa fez aqui referência, ainda há dias, a Sir Edmund Hillary, o montanhista e explorador neozelandês que conquistou, pela primeira vez na história da humanidade (em 29 de Maio de 1953), o monte Everest (juntamente com o sherpa Tenzing Norgay), o ponto mais elevado na Terra.

Mas eu não poderia deixar passar a oportunidade para também lembrar aqui um dos grandes exploradores que a humanidade conheceu: George Mallory. Mallory, acompanhado por Andrew Irvine, tentou a ascensão ao pico do Everest em Junho do ano 1924, naquela que era a primeira expedição organizada para atingir tal intento. Porém, nem Mallory nem o seu companheiro sobreviveram à ascensão, tendo desaparecido algures na face nordeste do pico. O equipamento manifestamente insuficiente e inadequado da altura, as difíceis condições atmosféricas, a dureza do terreno, ou a exaustão física e os problemas com a falta de oxigénio, ditaram o fim trágico daqueles dois heróicos exploradores.
Só passados 75 anos, em 1999, foi descoberto o cadáver de Mallory (bastante conservado devido ao frio), a cerca de 8100 metros de altitude.

Para a eternidade ficará a dúvida se Mallory e Irvine chegaram a atingir o tão almejado cume do Everest, a 8.848 metros de altitude, durante aquela fatídica ascensão. Ainda hoje não há certezas, havendo quem defenda que os alpinistas morreram já na fase da descida, tendo sido, desse modo, os primeiros humanos a conquistar o ponto mais elevado do planeta Terra.

Bem, não vou aqui desenvolver esta tese, ou a sua antítese, nem vou tomar partido por ninguém. Há muitos documentários sobre esta questão, e pela internet são imensas as páginas sobre a conquista do Everest.

Eu iria apenas citar aquelas que são consideradas as três palavras mais famosas de todo o montanhismo, e que são atribuídas a Mallory.

Questionado (tal como Hillary) porque razão queria subir ao Monte Everest, Mallory respondeu muito simplesmente: porque está lá ("because it's there" no original).


Quando a grafonola toca #7



Fausto - Velas e Navios Sobre as Águas (Em Busca das Montanhas Azuis - 2011)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A Minha Lua



A Minha Lua

No corredor virado a Sul, envidraçado,
Gosto de acompanhar a lua em sua andança.
E fico triste quando o céu, todo estrelado,
Ma não permite contemplar como em criança.

Mas tal sucede apenas no quarto minguante,
Em que monstro em betão desculpa-se a escondê-la.
É semana de espera e de olhar aguardente,
Como se nessas noites eu pudesse vê-la.

Por isso, quando nova surge com volume
De um dia ou dois e posso olhá-la em cheio,
Esqueço o tempo e fico, como de costume,
Preso à sua mensagem muda e ao seu enleio.

E acho que ela me indaga, em sua face errática,
Quem foi que lhe ensinou tão alta matemática.


Amadeu Torres / Castro Gil



Já são poucos os homens que contemplam assim a lua, e ainda menos os que escrevem assim sobre tal astro. Já não se fabricam homens como Amadeu Torres. Hoje ficamos mais pobres. Até sempre professor.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Ontem como hoje?


Em 1867, Mark Twain encetou uma viagem de vários meses, num paquete a vapor, desde Nova Iorque até ao Mediterrâneo, com vista a uma excursão por toda a Europa do Sul e pela Terra Santa.
Aquando da passagem pelo arquipélago dos Açores, teceu várias considerações, que deixou registadas em forma de crónicas*, umas positivas (como a qualidade das nossas estradas), outras francamente negativas (por exemplo, a grande quantidade de grupos de mendigos e maltrapilhos que se esforçavam por ludibriar os turistas), a propósito dos nossos costumes, usos, e características.

Após reconhecer que os americanos da altura pouco ou nada sabiam sobre os Açores, começa por descrever a população residente:

"A comunidade é principalmente portuguesa - ou seja, pobre, apática, modorrenta e preguiçosa."

Podia citar mais umas, mas deixo apenas esta singela citação para reflexão.



* Posteriormente reunidas no volume The Innocents Abord, or The New Pilgrims' Progress. Entre nós encontra-se publicado sob o título A Viagem dos Inocentes, Tinta da China, Out. 2010.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Quanto mais tu me bates mais eu gosto de ti



Ao ler o posta irada do nosso amigo Rego mesmo aqui em baixo, lembrei-me desta imagem que há dias encontrei algures por aí.

Este povo há-de ser masoquista, é o que é.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Uma decisão estúpida


Ainda a propósito do fim imprevisto e abrupto do programa da Antena 1 "Este Tempo" (já aqui falado), não poderei, como é natural, afirmar com certezas se tal facto se deve ou não a censura, a controlo de informação, e a pressão injustificável e inominável sobre a liberdade de opinião e jornalística.

É provável que sim. Mas neste país nunca chegamos a saber o que realmente se passou; neste nosso país nunca há claridade sobre estas situações; neste nosso país nunca há consequências e responsabilidades sobre situações desta natureza. Acostumámo-nos a este estado de coisas, e passamos o nosso tempo discutindo perpétuamente sem chegar a qualquer conclusão.

Mas o que posso afiançar, sem quaisquer dúvidas, é que o programa radiofónico da Antena 1 "Este Tempo" é (era) um belíssimo programa da rádio portuguesa, e como este não os há em grande quantidade. Um espaço independente, sobre temas interessantes, descontraído, de livre opinião feito por gente que sabe do que fala: no fundo um pequeno exemplo do que deveria pautar a programação dos serviços público de comunicação. Só o facto de contar (aliás, contava até ao momento) com a participação de jornalistas como Pedro Rosa Mendes (tendo sido uma crónica deste, ao que tudo indica, a gota de água que ditou o fim do espaço) e Gonçalo Cadilhe já diz muito acerca de probidade e utilidade do programa.

Deste modo, mesmo não se tratando de censura, o que é difícil de admitir, o fecho abrupto do programa "Este Tempo" sempre se tratará de uma decisão absolutamente estúpida, irracional, e injustificável, por parte da administração da RDP.

domingo, 22 de janeiro de 2012

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Alto do Minho


Um documentário a não perder em 2012, e que certamente será do agrado de todos os moradores desta viela. Agora esperemos que este filme-documentário, ao contrário do outro, estreie pelos cinemas ou salas públicas nacionais.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Uma ceia divina


Há um só banquete português
que desbanca
todos os jantares de Paris,
mas que os desbanca inteiramente:
é a ceia da véspera de Natal
nas nossas terras do Minho

Ramalho Ortigão


Pois assim é meus amigos, assim é. E acompanhado de um bom vinhão, esta ceia torna-se quase pecado. Mas não falemos em pecados, que todos nós os temos em boa e sã quantidade. Apenas vou desejar um bom Natal a todos os escrevedores desta viela e a todos os que por cá passam.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O sobreiro: Árvore Nacional de Portugal


Basta fazer um pequeno passeio pelo Monte de Roques (se não estou em erro, a actual fotografia do header foi lá tirada) para ficarmos com uma ideia, uma amostra digamos, de toda a floresta portuguesa: totalmente descaracterizada, negra e cinzenta, queimada e seca, sem vida, onde o eucalipto e outras espécies estrangeiras predominam que nem pragas. É a nossa triste realidade, que ainda fica mais miserável por altura do estio, quando as vagas de incêndios varrem todo o país de Norte a Sul.

Este é o retrato de um país e de um povo que trata mal a sua natureza, que nutre muito pouco respeito pela fauna e flora que existem (por não muito tempo mais) no seu território, e que por cá já se encontrava antes de nós chegarmos e começarmos a dar cabo desta porra toda. Tal cenário nota-se explicitamente na forma como nos relacionamos com as árvores: consideramo-las um empecilho, um alvo a abater, um embaraço e uma fonte de problemas (ou são as folhas que caem e sujam o jardim e a rua; ou os ramos que se partem e nos riscam o carro; ou as abelhas num dos seus buracos que nos perseguem e picam quando nos aproximamos; ou a coruja que de noite nos seus ramos pragueja com o seu piar, prenunciando morte e desgraça; ou as crianças mafarricas que sobem aos seus ramos certamente para fazerem patifarias e sabe Deus mais o quê). Por todas estas razões nos dá tanto gozo abater as árvores a eito por esses campos e cidades fora deste país. Por causa destas razões, quando construímos uma casa num pequeno terreno, tratamos logo de arrasar toda a flora arborícola que lá exista (quando poderiam ser um belíssimo elemento num jardim particular). Também por estas razões se verifica a actual razia de árvores nos espaços urbanos das nossas vilas e cidades aquando de arranjos urbanísticos e paisagísticos, sempre, claro está, invocando-se as mais modernas e avisadas justificações fito-sanitárias.
Enfim, poderia estar aqui toda a noite a completar o rol de malfeitorias que fazemos à nossa flora.

Assim, perante esta triste realidade, e ainda que possivelmente tudo fique igual, foi com algum contentamento, mas muito moderado, que li a notícia de que o sobreiro (essa belíssima árvore tão importante para a nossa economia e cultura) foi, após a aprovação de um projecto de resolução na Assembleia da República no dia de hoje, designada a "Árvore Nacional de Portugal" (ler notícia completa aqui). Não é muito, bem sei, mas pelo menos já é alguma coisa.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Um país esquecido

Como todos nós sabemos (uns mais, outros menos, é verdade), este nosso belo e tão mal tratadinho país é completamente ignorado, para não dizer desprezado, pelo mundo internacional, especialmente nas áreas culturais.

Ora, vem este intróito a propósito de mais uma lamentável e triste situação de desdém para com Portugal, desta vez no cinema, e que passo a explicar:

The Way é um filme realizado por Emilio Estevez, rodado na sua maior parte em Espanha e terminado ainda no ano de 2010. No seu elenco, além daquele director, conta, entre outros, com o seu próprio pai, o grande Martin Sheen (também pai do polémico actor comediante Charlie Cheen). A história do filme passa-se no caminho de Santiago, designadamente no caminho francês, a mais antiga e procurada via para os peregrinos que vinham e vêm da Europa em busca do túmulo do apóstolo Tiago, sito (segundo reza a lenda e a tradição) em Santiago de Compostela, na Galiza. Para além desta particularidade, que já não é de pouca monta, note-se que o próprio Martin Sheen (e consequentemente também o realizador, seu filho) tem raízes numa pequena aldeia do Sul da Galiza, a pouquíssimos quilómetros da fronteira com Portugal, no Minho. De facto, o pai de Martin Cheen, de seu nome Francisco Estevez (e o nome verdadeiro do Martin Sheen é Ramon Antonio Gerad Estévez), nasceu na aldeia de Parderrubias, no município de Salceda de Caselas, tendo emigrado para os Estados Unidos - como tantos das suas geração - quando jovem, no primeiro quartel do século XX.

Pois bem, e que tem isto a ver com o que eu comecei por falar? Tem tudo, uma vez que este filme trata de um assunto eminentemente ligado também a Portugal, principalmente ao Norte de Portugal, atenta à tradição de ligação das nossas gentes ao lugar santo de Santiago de Compostela (o caminho português é também uma das mais antigas e percorridas vias de peregrinação).
Deste modo, faria todo o sentido que o filme estreasse nas nossas salas de cinema pouco tempo depois de ter estreado em Espanha, na longínqua data de 19 de Novembro de 2010 (há mais de um ano portanto, e poucos dias após a estreia mundial em Toronto). Mas não, até à data ainda nem sequer estreou neste país, e nem sequer existe uma data previsível para a estreia, sendo muito possível que nunca chegue a passar nos nossos cinemas.
A situação é tão ridícula que, além do filme já ter estreado em cinema nos principais países ocidentais (EUA, Alemanha, Reino Unido, Irlanda, etc.), já passou até nas Filipinas e, no dia 1 de Dezembro passado, estreou no Líbano.

Enfim, já que não podemos ver este filme num cinema (a não ser que se esteja de férias no Líbano ou nas Filipinas), sempre vos deixo aqui o trailer (em HD que eu sou amigo), para ficarem com um cheirinho da coisa:




segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Quando a grafonola toca


Não sou, por natureza (ah a minha costela conservadora reaccionária minhota), grande apreciador de música contemporânea, e ainda menos se for portuguesa. São preconceitos, que querem? Quem não os tem?

Mas hoje abro uma excepção, até para esquecer o meu último postal, uma verdadeira nulidade musical. Deixo-vos então aqui com a canção Esse Olhar Que Era Só Teu (Lisboa Mulata, 2011), dos Dead Combo, para ouvir em modo repeat.

sábado, 3 de dezembro de 2011

E depois há o outro Minho


O Choi Minho, uma espécie de Justin biba do Oriente.


Meu Minho


Não sei muito bem qual a vossa ideia em relação a isto, e ainda menos em relação a convidarem-me para aqui escrevinhar. Coisa boa não deve ser com certeza.

Mas já que aqui estou, olhem, vou começar com uma citação sobre os lígures, um povo muito simpático do Noroeste da Itália (e que podia muito bem ser aplicado a outro povo, de outro Noroeste, dessa bela província do Minho donde todos estes inauditos companheiros provêm).

Os lígures são de duas categorias: os que estão presos à sua terra como lapas à rocha que não é possível arrancar; e os que têm por casa o mundo e, onde estão, encontram-se como na própria casa. Mas também os segundos, e eu sou dos segundos (...), voltam regularmente a casa e não estão menos presos à sua terra que os primeiros.
Excerto de uma entrevista feita em 1960 a Italo Calvino, reproduzido em Italo Calvino – Um Roteiro, Editorial Teorema, 1996